
Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
As três principais mensagens de São Petersburgo à maioria global
"Quando
o Ocidente Coletivo lançou uma guerra econômica total contra a Rússia, o
estado-civilização inverteu a situação", escreve Pepe Escobar
12 de junho de 2024, 19:18 hAtualizado em 12 de junho de 2024, 23:45 h


Vladimir Putin discursa no SPIEF 2024, em São Petersburgo (Foto: Kremlin.ru)
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No
ano da presidência russa dos BRICS, o Fórum Econômico Internacional de
São Petersburgo (SPIEF) tinha que entregar alguma coisa de muito
especial.
E entregou mesmo: mais de 21 mil participantes
representando nada menos que 139 países – um verdadeiro microcosmo da
Maioria Global, discutindo cada uma das facetas do impulso rumo a um
mundo multipolar, multimodal (itálicos meus) e policêntrico.
São
Petersburgo, além de todos os contatos estabelecidos e do ritmo
frenético do fechamento de acordos – 78 bilhões de dólares em apenas
três dias – produziu três importantíssimas mensagens correlacionadas,
que já ressoam por toda a Maioria Global.
Mensagem Número Um:
O
Presidente Putin, um "russo europeu" e verdadeiro filho dessa
deslumbrante e dinâmica maravilha histórica às margens do Neva,
proferiu, na sessão plenária do fórum, um discurso extremamente detalhado de uma hora de duração sobre a economia russa.
A
principal conclusão: quando o Ocidente Coletivo lançou uma guerra
econômica total contra a Rússia, o estado-civilização inverteu a
situação, conseguindo se posicionar como a quarta maior economia do mundo por paridade de poder de compra.
Putin
demonstrou que a Rússia ainda tem o potencial de lançar nada menos que
nove mudanças estruturais abrangentes – de escala global – em uma
iniciativa ampla envolvendo as esferas federal, regionais e municipais.
Tudo
está em jogo – do comércio e mercado de trabalho globais até
plataformas digitais, tecnologias modernas, fortalecimento de pequenas e
médias empresas e exploração do fenomenal potencial ainda inexplorado
das regiões russas.
O que ficou perfeitamente claro foi que a
Rússia conseguiu se reposicionar, indo muito além de apenas se evadir do
tsunami de sanções ilegítimas, para criar um sistema sólido e
diversificado, orientado para o comércio global – e totalmente vinculado
à expansão dos BRICS. Os estados simpáticos à Rússia já respondem por três-quartos do volume de negócios de Moscou.
A ênfase colocada por Putin na aceleração do impulso da Maioria Global rumo
ao fortalecimento de sua soberania liga-se diretamente ao fato de o
Ocidente Coletivo dar o melhor – ou o pior – de si para solapar a
confiança em sua própria infraestrutura de pagamentos.
O que nos leva a…
Glazyev e Dilma sacodem o barco.
Mensagem Número Dois:
É
possível afirmar que esse tenha sido o principal avanço em São
Petersburgo. Putin declarou que os BRICS estão trabalhando na criação de
sua própria infraestrutura de pagamentos, independente das pressões/sanções do Ocidente Coletivo.
Putin teve uma reunião especial com Dilma Rousseff,
presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) dos BRICS. Eles
conversaram detalhadamente sobre o desenvolvimento do banco – e acima de
tudo, como mais tarde confirmado por Rousseff, sobre A Unidade, cujos
contornos foram revelados com exclusividade pela Sputnik: uma forma de pagamentos transfronteiras apolítica e transacional, ancorada no ouro (40%) e nas moedas do BRICS+ (60%).
No
dia seguinte a seu encontro com Putin, a presidenta Dilma teve um
encontro ainda mais crucial às dez da manhã, em uma sala privada do SPIEF, com Sergey Glazyev, Ministro de Macroeconomia da União Econômica Eurasiana (UEEA) e membro da Academia Russa de Ciências.
Glazyev,
que anteriormente havia dado plena sustentação acadêmica ao conceito da
Unidade, explicou à Presidenta Dilma todos os detalhes. Ambos pareciam
extremamente satisfeitos com o resultado da reunião. Uma radiante Dilma
Rousseff revelou que já havia discutido A Unidade com Putin. Ficou
combinada a realização de uma conferência especial sobre A Unidade no
NBD em Xangai, no mês de setembro.
O que significa que o novo
sistema de pagamentos tem todas as chances de ser levado à mesa no
decorrer da cúpula dos BRICS, a ser realizada em outubro, em Kazan, e de
ser adotado pelos atuais BRICS 10 e, em um futuro próximo, expandido para o BRICS+.
Agora vamos à ...
Mensagem Número Três:
Que,
é claro, tinha que ser sobre os BRICS que, segundo todos, Putin
inclusive, serão significativamente expandidos. A qualidade das sessões tratando dos BRICS,
em São Petersburgo, demonstra que a Maioria Global se confronta agora
com uma conjuntura histórica inédita – que traz a possibilidade real de,
pela primeira vez em 250 anos, partir decididamente para uma mudança
estrutural do sistema mundial.
E não se trata apenas dos BRICS.
Ficou
confirmado em São Petersburgo que nada menos que 59 países – número que
continua aumentando – planejam se juntar não apenas aos BRICS, mas
também à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e à União Econômica
Eurasiana (UEEA).
Não é para menos: essas organizações
multilaterais agora, finalmente, se firmaram na vanguarda do impulso
rumo ao que Putin denominou de "mundo multipolar harmônico" e multimodal (itálicos meus).
As Principais Sessões para Referência Futura
Tudo
o que foi dito acima pôde ser acompanhado ao vivo no decorrer dos
frenéticos dois dias e meio das sessões do fórum. Aqui vai uma amostra
das sessões que podem ser vistas como as mais interessantes. Esse
material pode vir a ser de grande utilidade como referências futuras –
inclusive para a cúpula dos BRICS a ser realizada em outubro e para
outros encontros posteriores.
Sobre a Rota Marítima do Norte
e a expansão para o Ártico. O melhor slogan da sessão: "Precisamos de
quebradores de gelo!" O cerne da discussão foi a compreensão de que as
atuais cadeias de fornecimento do comércio global deixaram de ser
confiáveis, e como a Rota Marítima do Norte é mais rápida, mais barata e
mais confiável.
Sobre a expansão empresarial dos BRICS.
Sobre as metas dos BRICS para uma verdadeira nova ordem mundial.
Sobre os 10 anos da UEEA.
Sobre uma maior integração entre a UEEA e a ASEAN.
A mesa-redonda dos BRICS+ sobre o Corredor Internacional de Trasnsportes Norte-Sul (CITNS).
Esta
última sessão foi particularmente importante. Os principais atores do
CITNS são Rússia, Irã e Índia – todos eles membros dos BRICS. Os atores
mais periféricos que irão se beneficiar do CTINS, do Cáucaso à Asia
Central e do Sul – já estão interessados em se juntar aos BRICS+. Igor
Levitin, consultor de primeiro escalão de Putin, foi uma figura central
nessa sessão.
A Parceria da Grande Eurásia (GEP).
Essa
foi uma discussão essencial sobre o que vem a ser um projeto
eminentemente civilizacional – em contraste com o enfoque exclusionista
do Ocidente Coletivo. A discussão mostra de que forma a GEP se interliga
com a OCX, a UEEA e a ASEAN, ressaltando a inevitável complementaridade
entre transportes, logística, energia e estrutura de pagamentos por
toda a Eurásia. Glazyev, o Primeiro-ministro Adjunto Alexey Overchuk e a
antiga ministra das relações exteriores austríaca Karin Kneissl –
sempre ultra-afiada – foram participantes de primeira importância. Um
surpreendente bônus adicional: Adul Umari, Ministro do Trabalho e
exercício do Afeganistão talibã, interagindo com seus parceiros
eurasianos.
Sobre a filosofia da multipolaridade.
Em
termos conceituais, essa sessão interage com a sessão sobre a Parceria
Grande Eurásia. Ela oferece a perspectiva de um conciso diálogo
intercivilizacional no âmbito dos BRICs+. Alexander Dugin, a
irreprimível Maria Zakharova e o Professor Zhang Weiwei da Universidade
de Fudan estão entre os participantes.
Sobre o Policentrismo.
O tema envolve todas as instituições da Maioria Global: BRICS, OCX,
UEEA, a Comunidade de Estados Independentes (CIS), a Organização do
Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), a Conferência sobre Medidas de
Interação e Construção de Confiança na Ásia (CICA), a União Africana, o
novo Movimento Não-Alinhado (NAM). Glazyev, Maria Zakharova, o Senador
Pushkov e Alexey Maslov – diretor do Instituto de Estudos Asiáticos e
Africanos da Universidade Estadual de Moscou – discutem formas de
construção de um sistema policêntrico de relações internacionais.
Enquanto o Projeto Ucrânia Enfrenta a Ruína...
Por
fim, é inevitável o contraste entre o – esperançoso e auspicioso –
estado de espírito reinante no Fórum de São Petersburgo e a histeria do
Ocidente Coletivo no momento em que o Projeto Ucrânia se vê frente à sua própria ruína. Putin deixou bem claro:
a Rússia prevalecerá, aconteça o que acontecer. O Ocidente Coletivo
pode requentar a "solução Istambul", como observado por Putin, mas
modificado "com base na nova realidade" do campo de batalha.
Putin,
com grande habilidade, também desativou toda a tola e pré-fabricada
paranoia nuclear que infesta os círculos atlanticistas.
Mesmo
assim, isso não será suficiente. Nos superlotados corredores do SPIEF, e
também em reuniões informais, havia plena consciência do belicismo fantasiado de "defesa"
que só faz revelar o desespero do Hegêmona. Aqui, não havia a menor
ilusão de que a atual demência posando de "política externa" está
apostando em um genocídio, não apenas em benefício do "porta-aviões" do
Oeste Asiático mas, principalmente, para forçar a Maioria Global à
submissão.
Isso colocaria a grave possibilidade de a Maioria
Global ter que construir uma aliança militar a fim de deter essa Guerra
Global planejada.
A Rússia-China, é claro, mais o Irã e uma
defesa árabe com credibilidade, com o Iêmen apontando o caminho: tudo
isso tem que se converter em um sine qua non. Uma aliança militar da
Maioria Global terá que surgir de uma forma ou de outra: ou antes do
desastre, planejado para um futuro próximo, a fim de mitigá-lo, ou após
esse desastre ter engolfado por completo o Oeste Asiático em uma guerra
monstruosa e maligna.
É lamentável que talvez estejamos muito
próximos a esse ponto. Mas, ao menos, São Petersburgo ofereceu
vislumbres de esperança. Putin: "A Rússia será o coração de um mundo
multipolar harmônico". É assim que se fecha um discursos de uma hora.
Tradução de Patricia Zimbres
Fonte: https://www.brasil247.com/blog/as-tres-principais-mensagens-de-sao-petersburgo-a-maioria-global