A
primeira infância — período que abrange os seis primeiros anos de vida —
é considerada decisiva para o desenvolvimento humano. É nessa fase que o
cérebro forma conexões em ritmo acelerado e recebe estímulos
fundamentais para o crescimento físico, cognitivo e emocional.
Reconhecida pela Constituição como prioridade absoluta, essa etapa
demanda políticas públicas estruturadas, capazes de promover equidade e
romper os ciclos de desigualdade social.
Mais do que um programa de transferência de renda, o Bolsa Família
atua como instrumento de proteção integral, garantindo que crianças,
adolescentes e gestantes tenham acesso a direitos básicos de saúde, educação e assistência social, por meio das chamadas condicionalidades — compromissos que reforçam o papel das famílias e do poder público no desenvolvimento das novas gerações.
Entre
essas condicionalidades estão o acompanhamento pré-natal das gestantes,
o cumprimento do calendário nacional de vacinação, o monitoramento do
peso e da altura de crianças menores de sete anos e a exigência de
frequência escolar mínima: 60% para crianças de quatro e cinco anos e 75% para estudantes de seis a 18 anos que ainda não concluíram a educação básica.
Em setembro de 2025, o Benefício Primeira Infância (BPI) alcançou 8,4 milhões de crianças de até seis anos, com repasse total de R$ 1,19 bilhão do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O programa também contemplou 623 mil gestantes, com R$ 28,9 milhões pelo Benefício Variável Gestante (BVG), e 302 mil famílias com bebês de até seis meses, com R$ 14,4 milhões pelo Benefício Variável Nutriz (BVN).
Esses
compromissos reforçam a importância de estados e municípios na oferta
de serviços públicos de qualidade. Creches, escolas, unidades básicas de
saúde e Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) são
fundamentais para garantir que as famílias cumpram as condicionalidades e
tenham acesso aos seus direitos.
Na primeira vigência de 2025, o Bolsa Família assegurou o acompanhamento de saúde de 81,38% do público-alvo, alcançando 27 milhões de pessoas, entre elas 5,6 milhões de crianças e 560 mil gestantes.
A experiência de Alexandra Guinsonares,
25 anos, mãe de quatro filhos e moradora do Rio Grande do Sul, mostra o
impacto concreto das políticas públicas. Beneficiária do Bolsa Família,
ela afirma que o apoio financeiro foi decisivo para garantir o básico
aos filhos e permitir a retomada dos estudos. “O Bolsa Família
representa esperança. Sei que aquele dinheiro vai estar ali e vai me
ajudar. Posso terminar meus estudos para conseguir um trabalho melhor e
dar um futuro aos meus filhos”, relatou.
Mais do que o auxílio
financeiro, Alexandra destaca o valor das condicionalidades de saúde e
educação. “Cuidem dos seus filhos, porque eles são o futuro. Temos o
SUS, as vacinas, as escolas. É preciso insistir para que estudem. Sem
educação, a gente não é nada.”
Inserção de mães no mercado de trabalho
Mães
beneficiárias do Bolsa Família registram participação mais elevada no
emprego formal quando comparadas a outros grupos de mulheres. As
conclusões constam do artigo “Transferência de renda e participação feminina no mercado laboral: o caso do Programa Bolsa Família”, publicado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
O estudo identificou aumento de 1,13 ponto percentual na presença dessas mães no mercado de trabalho com carteira assinada, o que representa crescimento de 7,4% em relação à média anterior ao início do recebimento do benefício. O efeito positivo é ainda mais expressivo entre mães de crianças de três a seis anos, fase em que o apoio financeiro e as políticas de cuidado infantil têm papel decisivo para facilitar a inserção profissional.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C) do IBGE, cerca de um terço das mulheres afirma não estar disponível para aceitar uma oferta de emprego — índice que cai para 10% entre os homens. Entre as mulheres, 20%
apontam a necessidade de cuidar da casa e dos filhos como principal
motivo para essa indisponibilidade, fator praticamente inexistente entre
os homens.
A relação entre o trabalho das mães e a frequência
escolar das crianças é direta. Para garantir o benefício, o programa
exige que as crianças e adolescentes mantenham presença mínima na
escola, estimulando um ciclo virtuoso de educação e autonomia familiar.
A moradora de Sobradinho (DF) Elizângela da Silva,
40 anos, mãe de quatro filhos, reforça a importância desse apoio.
“Quando eu tive meus dois primeiros filhos, nós passamos muita fome. Eu
era nova, não arrumava emprego e o Bolsa Família me ajudou muito”,
contou.
Com o benefício, ela conseguiu estabilidade e tempo para
se capacitar. “Usava o dinheiro para fazer as compras e aproveitava o
tempo em que as crianças estavam na escola para fazer cursos de
cuidadora de idoso e agente de portaria. Consegui um emprego e não
preciso mais receber. Espero não precisar mais e dar oportunidade para
outras mães que passam pelo que eu passei.”
Brasil atinge o menor patamar de fome da história
Os
avanços das políticas sociais como o Bolsa Família se refletem também
nos indicadores nacionais de segurança alimentar. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil voltou, em 2024, ao menor patamar de fome da história, repetindo o índice alcançado em 2013.
Entre 2023 e 2024, o número de domicílios em insegurança alimentar grave — quando falta comida até para as crianças — caiu de 3,1 milhões para 2,5 milhões, uma redução de 19,9%. Mais de 2 milhões de pessoas deixaram a condição de fome em apenas um ano, e 8,8 milhões passaram à segurança alimentar.
A melhora foi registrada em todas as regiões do país, tanto em áreas urbanas quanto rurais, embora o Norte e o Nordeste ainda concentrem os maiores índices.
Os dados confirmam que o Bolsa Família permanece como um instrumento essencial de proteção social,
reduzindo desigualdades, fortalecendo a primeira infância e ampliando
as oportunidades para mulheres e famílias em todo o Brasil.